O documento religioso que autorizou a poligamia, ameaçou uma mulher com destruição divina e definiu esposas como "pertencentes" ao marido — explicado para qualquer pessoa entender.
Antes de ler qualquer linha do texto, você precisa saber as circunstâncias em que ele foi produzido — porque isso muda tudo.
D&C 132 é a sigla para Doutrina e Convênios, Seção 132, um dos textos canônicos da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (popularmente chamados de "Mórmons"). Para os fiéis, esse texto é literalmente a Palavra de Deus, ditada pelo profeta Joseph Smith em 12 de julho de 1843.
O documento contém duas grandes doutrinas: o casamento eterno (ideia de que o casamento pode continuar após a morte) e a poligamia (um homem pode ter várias esposas). São doutrinas que co-existem no mesmo texto e se justificam mutuamente.
Como surgiu? Aqui começa o problema. O texto não surgiu de uma experiência mística espontânea. O irmão de Joseph Smith, Hyrum, queria convencer Emma — a esposa oficial de Joseph — de que a poligamia era verdade divina. Por isso, ele pediu que Joseph colocasse a revelação por escrito. Em outras palavras:
O documento foi criado porque Emma Smith resistia à poligamia. Hyrum achava que um papel escrito com a "voz de Deus" convenceria a esposa a aceitar que o marido se casasse com outras mulheres.
Joseph Smith começa a ensinar a prática da poligamia em privado para um pequeno círculo de confiança, mais de uma década antes do texto oficial.
Joseph já contraiu mais de 30 casamentos plurais antes de "revelar" oficialmente a doutrina. A revelação veio depois da prática, não antes.
Joseph dita o texto para o escrivão William Clayton, na presença de Hyrum. Emma, que está na outra sala, tem acesso ao documento — e o rejeita.
Circulou em segredo por quase uma década entre um grupo restrito de líderes. Só foi publicado oficialmente 9 anos após ser escrito.
O governo americano ameaça confiscar os templos da Igreja. O presidente Wilford Woodruff recebe então uma nova "revelação" abolindo a poligamia. Críticos notam a coincidência com a pressão política.
A parte mais bonita do documento é também a mais eficaz para prender as pessoas dentro da instituição religiosa.
O coração de D&C 132 é uma ideia genuinamente poética: o casamento não precisa terminar com a morte. Um casal selado pelo "poder do sacerdócio" no templo pode permanecer unido pela eternidade.
Para quem acredita, isso é extraordinariamente confortante. Mas o texto vai além e cria uma hierarquia rígida com consequências eternas para quem não participar dos rituais da Igreja:
Se um homem se casar com uma mulher no mundo e não se casar por meu intermédio [...] seu convênio e casamento não terão valor quando morrerem [...]. Esses anjos não guardaram minha lei; portanto, não podem crescer, mas permanecem separados e solteiros, sem exaltação, por toda a eternidade; e daí em diante não são deuses, mas anjos de Deus para todo o sempre.
Em linguagem simples: qualquer casamento realizado fora do templo mórmon — religioso, civil, de qualquer outra tradição — é declarado inválido para a eternidade. Esses cônjuges não vão ficar juntos depois da morte. Não vão "progredir". Serão servos eternos dos que obedeceram.
Do ponto de vista sociológico, essa doutrina cria um poderoso mecanismo de retenção. Sair da Igreja não significa apenas perder a comunidade — significa, na crença do fiel, perder o cônjuge e os filhos na eternidade. Pesquisadores de religiões chamam isso de "custo de saída" — quanto mais alto, mais difícil é deixar o grupo.
Casamento válido para a eternidade. Família reunida após a morte. Possibilidade de "exaltação" e de se tornar deus.
Casamento termina com a morte. Cônjuges separados. Sem possibilidade de crescimento eterno. Status de "anjo" subserviente.
Perdeu os convênios. Família em risco eterno. O texto não oferece nenhuma saída digna para quem decide sair.
Os versículos 51–57 são endereçados diretamente à esposa de Joseph. O que eles dizem é difícil de acreditar à primeira leitura.
Emma Smith foi a esposa oficial de Joseph. Ela resistia fortemente à poligamia. Tinha razões óbvias para isso: o marido estava se casando às escondidas com outras mulheres — algumas vivendo na própria casa deles.
O texto que teria sido ditado por Deus inclui uma seção específica endereçada a ela. Leia com atenção o que diz:
E ordeno que minha serva Emma Smith permaneça com meu servo José, apegando-se a ele e a nenhum outro. Mas se não guardar esse mandamento, ela será destruída, diz o Senhor; porque eu sou o Senhor vosso Deus e destruí-la-ei se ela não guardar minha lei.
E que minha serva Emma Smith receba todas as que foram dadas a meu servo Joseph [...] e as que não são puras e que se disseram puras serão destruídas, diz o Senhor Deus.
Para garantir que ficou claro: "Deus" está dizendo a Emma que ela deve:
Receber todas as mulheres que Joseph já havia desposado — e aquelas que ainda viria a desposar.
Mesmo que Joseph tome dezenas de esposas, Emma deve ser fiel exclusivamente a ele.
A ameaça é explícita e repetida duas vezes no mesmo capítulo.
Imagine receber uma carta do seu cônjuge dizendo que Deus mesmo garante que você será destruída se não aceitar que ele se case com outras mulheres. No contexto histórico, Emma era uma mulher do século XIX, sem independência financeira, sem recursos legais, profundamente inserida em uma comunidade religiosa. Esse texto funcionava como coerção psicológica de altíssima intensidade, revestida de autoridade divina incontestável.
O texto é surpreendentemente direto sobre isso.
E se ele desposar a segunda e elas forem virgens e não estiverem comprometidas com qualquer outro homem, então ele estará justificado [...]. E se dez virgens lhe forem dadas por essa lei, ele não estará cometendo adultério, porque elas lhe pertencem e lhe foram dadas; portanto, ele está justificado.
O número dez não é um limite — é apenas um exemplo. O texto não impõe nenhum teto numérico. A lógica interna do documento é: qualquer número de mulheres "dadas" pela autoridade do sacerdócio é considerado justificado diante de Deus.
Há uma condição mencionada: a primeira esposa deve consentir. Mas o mesmo texto anula essa condição logo adiante — se a primeira esposa recusar, o marido fica "isento" da necessidade de pedir permissão, e a esposa se torna "a transgressora".
| Condição | O que o texto diz | O que isso significa na prática |
|---|---|---|
| Número de esposas | Sem limite definido. "Dez" é exemplo. | Ilimitado com "autorização divina" |
| Consentimento da 1ª esposa | Mencionado como condição no v. 61 | Anulado no v. 65 se ela recusar |
| As novas esposas devem ser virgens | Sim, mencionado no v. 61 | Joseph casou-se com mulheres já casadas |
| Autorização necessária | Do sacerdócio (i.e., da própria Igreja) | Controle centralizado na instituição |
Joseph Smith, o autor da revelação, casou-se com mais de 30 mulheres, algumas já casadas com homens vivos, e pelo menos uma de 14 anos. O texto que teoricamente regulamentava a poligamia foi escrito depois que a prática já havia sido iniciada — funcionando não como revelação que precede e disciplina, mas como justificativa retroativa para o que já estava ocorrendo.
As palavras escolhidas em um texto sagrado importam. Elas moldam como gerações inteiras entendem o mundo.
D&C 132 usa repetidamente uma linguagem que trata as esposas como objetos de posse. O versículo 62 diz explicitamente que as esposas "lhe pertencem" — e que por isso ele não pode cometer adultério "com o que lhe pertence".
E se dez virgens lhe forem dadas por essa lei, ele não estará cometendo adultério, porque elas lhe pertencem e lhe foram dadas; portanto, ele está justificado.
O manual oficial da Igreja, ao ser questionado sobre essa linguagem, responde que era "costume da época" dizer que a noiva era "dada em casamento". Mas há uma diferença fundamental entre um pai "dar" a filha em casamento (metáfora de entrega) e um texto canônico dizer que a esposa "pertence" ao marido como justificativa para que o adultério não exista.
Na lógica do versículo 62, o adultério é definido não pelo número de parceiras, mas pela propriedade. Uma mulher que "pertence" ao homem não pode ser "adultério". Uma mulher que não lhe "pertence" sim. É uma redefinição do conceito de fidelidade que coloca o homem no centro e a mulher como objeto.
Além disso, o texto contém uma assimetria flagrante: enquanto o homem pode ter quantas esposas forem "dadas" a ele, a mulher que se casar com outro homem sem autorização é chamada de adúltera — e pode ser "destruída".
| Situação | Para o homem | Para a mulher |
|---|---|---|
| Múltiplos cônjuges | Permitido e justificado por Deus | Adultério — sujeita a destruição |
| Recusar a prática | Não há consequência prevista | Será "destruída" — v. 54 |
| Fidelidade exigida | Não, explicitamente | Sim, exclusivamente |
| Poder de decisão | Total — escolhe as esposas | Nulo — deve aceitar ou sofrer |
Comparar o texto com os fatos históricos documentados revela contradições que a Igreja levou muito tempo para reconhecer.
Joseph já praticava a poligamia desde pelo menos 1833. A revelação "divina" que a autorizou foi escrita 10 anos depois, em 1843.
O texto ficou restrito a um pequeno grupo de líderes por quase uma década. Só foi publicado em 1852, depois da morte de Joseph.
Em 1890, o governo americano ameaçou confiscar os templos. Só então veio a "revelação" abolindo a prática.
Ao menos 11 das esposas de Joseph eram mulheres de outros homens vivos — uma prática que o próprio D&C 132 não autorizava.
A mais jovem das esposas documentadas de Joseph Smith tinha 14 anos quando foi desposada. Ele tinha 37.
Enquanto praticava a poligamia em privado, Joseph negou publicamente a prática diversas vezes — inclusive a Emma.
D&C 132 é um documento que merece ser lido com olhos abertos. Ele contém ideias genuinamente originais — o casamento eterno, a família como unidade espiritual, o potencial de desenvolvimento humano. Essas ideias têm beleza real e ressoam profundamente em quem acredita.
Mas o mesmo documento usa a voz de Deus para coagir uma mulher a aceitar a poligamia do marido, ameaçando-a de destruição; define esposas como propriedade masculina; cria uma hierarquia espiritual que prende os fiéis dentro da instituição com consequências eternas; e surgiu em circunstâncias históricas que sugerem fortemente que serviu aos interesses imediatos de seu autor.
Reconhecer isso não exige hostilidade a pessoas religiosas. Exige apenas honestidade ao ler um texto que, até hoje, permanece como escritura canônica de uma das maiores religiões do mundo.
Cada afirmação deste documento pode ser verificada nas fontes abaixo. Priorizamos fontes primárias — manuscritos originais, textos canônicos oficiais da Igreja e publicações acadêmicas peer-reviewed — para que ninguém precise confiar apenas em nossa palavra.
Este documento é uma análise crítica e educacional. Todas as afirmações são rastreáveis às fontes listadas na seção 08. As citações das escrituras usam a versão oficial em português de churchofjesuschrist.org. Fontes primárias incluem o Joseph Smith Papers Project, os Gospel Topics Essays da própria Igreja, e obras acadêmicas de historiadores incluindo Richard Bushman, Linda King Newell, Valeen Avery e Brian Hales.