Um ritual sacerdotal em que um casal é oficialmente selado "até a Primeira Ressurreição" — ou seja, declarado deus e deusa com "exaltação garantida" ainda em vida mortal. Praticado desde 1843. Restrito a famílias pré-selecionadas, geralmente de autoridades gerais. Sua existência é omitida em manuais públicos e evitada em conferências — mas documentada por historiadores mórmons com acesso a arquivos internos.
A Segunda Unção — também chamada "Fullness of the Priesthood", "Second Blessing" ou "Anointing to the Fullness" — foi introduzida por Joseph Smith em 28 de setembro de 1843, na Red Brick Store em Nauvoo. Quatro meses depois de ditar D&C 132.
Sessão do quórum no quarto em Joseph. [...] Joseph foi ungido e coroado rei e sacerdote sobre a casa de Israel [...]. Presentes: Brigham Young, Heber C. Kimball, William Law, Willard Richards, Wilson Law, Hyrum Smith, John Taylor, [outros quórum].
A ordenança foi estruturada como "segunda" porque vem depois do endowment regular (a "primeira unção"). O primeiro recipiente junto com Joseph foi Hyrum, e depois Brigham Young, Heber C. Kimball e os demais apóstolos. Emma Smith recebeu a sua em 8 de novembro de 1843 — tornando-se "rainha e sacerdotisa".
O historiador D. Michael Quinn — ex-professor da BYU e membro da Igreja até sua excomunhão em 1993 — documenta:
A Segunda Unção foi considerada por Joseph Smith como a culminação de todas as ordenanças do templo. Ela completa o que a primeira unção apenas promete. Em 1843, Joseph ensinou que sem a Segunda Unção, "you will never have power sufficient to obtain that glory" [William Clayton, 17 jul 1843]. O ritual não foi publicado em nenhum cânon nem em nenhum manual oficial.
O conteúdo do ritual foi documentado por historiadores mórmons com acesso a fontes primárias — incluindo diários de participantes, transcrições internas da Igreja e depoimentos de ex-membros.
Com base na documentação de Buerger (The Mysteries of Godliness, 1994, cap. 6) e no depoimento de Tom Phillips (2012–2013), o ritual tem tipicamente três partes:
Um membro da Primeira Presidência ou Quórum dos Doze unge a cabeça do homem com óleo consagrado, declarando-o "rei e sacerdote para Deus para todo o sempre, sobre a casa de Israel". A esposa é ungida "rainha e sacerdotisa".
Em privado, posteriormente, a esposa lava e unge os pés do marido com óleo — repetindo o gesto de Maria Madalena com Jesus. O gesto é interpretado como preparação para a sepultura e símbolo de "domínio celestial".
O casal é declarado oficialmente selado "até a Primeira Ressurreição" — o que, na teologia SUD, equivale a exaltação celestial garantida. É o ponto em que a "chamada e eleição" (D&C 131:5) é "feita certa".
A mais segura palavra de profecia significa saber que se está selado à vida eterna, por revelação e espírito de profecia, através do poder do Santo Sacerdócio.
D&C 131:5 é o único versículo canônico que se refere obliquamente à Segunda Unção. Em lições públicas, a passagem é ensinada como "ter certeza da salvação por meio da fé e obediência" — mas o entendimento interno, conforme documentação de Buerger, refere-se especificamente a esta ordenança.
A Segunda Unção não é solicitada — é oferecida. Um casal só recebe se for indicado por um apóstolo ou membro da Primeira Presidência.
Os dados documentados por Quinn (Extensions of Power, 1997) e Buerger (Mysteries of Godliness, 1994):
| Período | Estimativa de casais ungidos | Perfil |
|---|---|---|
| 1843–1846 (Nauvoo) | ~80 casais | Apóstolos, Setenta e círculo próximo de Joseph Smith |
| 1851–1877 (Brigham Young) | ~1.800 casais | Expansão — incluía alguns polígamos de classe média |
| 1877–1918 | ~1.400 casais | Restrição gradual |
| 1918–1941 | ~500 casais | Heber J. Grant restringe drasticamente |
| 1941–presente | Poucas centenas por década | Autoridades gerais, presidentes de missão, presidentes de templo, grandes doadores e famílias indicadas |
Total estimado desde 1843: entre 3.000 e 4.500 casais — dentre mais de 20 milhões de membros já selados. É uma ordenança estruturalmente elitista.
A teologia SUD pública ensina que a exaltação (tornar-se deus) está disponível a qualquer pessoa que siga as leis do evangelho. A Segunda Unção introduz uma categoria intermediária: a garantia de exaltação ainda em vida, reservada a um grupo selecionado por hierarquia.
Isto cria duas classes de membros no mesmo sistema doutrinário: os ordinários, que precisam perseverar até o fim com incerteza sobre sua salvação, e os ungidos, cuja eleição é "feita certa" por decreto humano. A estrutura é mais próxima da noção calvinista de "eleição garantida" do que do evangelho público de "obediência contínua".
O problema ético adicional: os ungidos são na maioria pessoas com autoridade formal ou riqueza. Jesus Woodruff Nelson (neto do presidente Russell M. Nelson) confirmou em declaração pública em 2019 ter recebido a ordenança. Documentação de Quinn e Phillips indica que grandes doadores e CEOs mórmons (inclusive da Marriott Corporation) recebem a unção.
Em 2012, Tom Phillips — empresário britânico, ex-bispo, ex-presidente de estaca e ex-CEO da Financial Times Publishing — publicou um afidávit detalhando a Segunda Unção que ele e sua esposa receberam em 1987 no Templo de Preston, Inglaterra, oficiada por M. Russell Ballard (apóstolo).
Phillips é um caso singular pela posição institucional elevada e pela integridade documentária: seu afidávit foi confirmado por MormonLeaks, analisado por Dialogue Journal e nunca desmentido pela Igreja.
M. Russell Ballard começou ungindo-me da cabeça aos pés com óleo, declarando-me "rei e sacerdote para Deus para todo o sempre, sobre a casa de Israel". Depois ungiu minha esposa "rainha e sacerdotisa para seu marido para todo o sempre". [...] Fomos instruídos de que nossa salvação estava agora selada — "called and chosen" — e que nenhum pecado poderia nos tirar a exaltação, exceto derramar sangue inocente ou negar publicamente o Cristo.
Phillips moveu, em 2014, uma ação legal em Londres (caso Phillips v. Monson) tentando processar o então presidente Thomas S. Monson por fraude — alegando que as doações à Igreja eram baseadas em reivindicações históricas não verdadeiras. O caso foi arquivado por questões de jurisdição em 2014. O conteúdo documentado do afidávit permaneceu sem contestação.
A Igreja SUD nunca negou publicamente a existência da Segunda Unção — nem publicamente confirmou. O padrão é "omissão institucional": o ritual não aparece em manuais, em cursos para novos membros, nem em comunicações para o público em geral. Aparece apenas em literatura acadêmica de Buerger, Quinn e, mais recentemente, no afidávit verificado de Phillips.
A Igreja nunca produziu uma declaração oficial sobre a Segunda Unção no século XX ou XXI. A política é: não confirmar, não negar, não discutir.
A única menção oblíqua recente é do discurso de conferência geral de Bruce R. McConkie em outubro de 1977:
Alguns membros da Igreja fazem sua chamada e eleição ser feita certa nesta vida mortal. [...] Há aqueles que receberam a plenitude do sacerdócio, a coroa, o trono. [...] Este é um tópico sobre o qual não nos estendemos abertamente.
O parâmetro "não nos estendemos abertamente" tem sido o comportamento institucional por mais de um século. Quando perguntas diretas são feitas por jornalistas (Associated Press, Salt Lake Tribune), o departamento de relações públicas da Igreja encaminha perguntas aos departamentos históricos sem responder diretamente.
O Handbook of Instructions — manual usado por bispos — inclui instruções sobre a ordenança, mas o manual é confidencial: membros comuns não têm acesso. Phillips (2012) e outros ex-líderes (como o ex-bispo Sam Young) relataram conteúdo do handbook que confirma existência da ordenança com procedimento regularizado.
A Segunda Unção é uma ordenança real, oficial e praticada — documentada desde 1843 e em uso contínuo até 2026 — mas existe em uma zona institucional intencionalmente opaca. Sua existência não é negada; tampouco é discutida nos contextos públicos onde a teologia da exaltação é ensinada.
O problema, para um sistema religioso que reivindica transparência doutrinária, é a criação de duas "camadas" de evangelho: a pública, em que todos os membros trabalham a vida inteira em direção a uma exaltação incerta; e a privada, em que uma elite selecionada tem "a garantia da exaltação ainda em vida" conforme indicação hierárquica.
O afidávit de Tom Phillips (2012), somado aos estudos acadêmicos de Buerger (1994) e Quinn (1997), fornece documentação suficiente para afirmar com segurança: o ritual existe, é oficial, envolve linguagem de divinização explícita ("rei e sacerdote para sempre") e é sistematicamente omitido do discurso público da Igreja.
Obras acadêmicas de historiadores mórmons com acesso a arquivos internos, afidávit legal de ex-líder e menção oficial em Ensign de 1977. A Igreja nunca negou o conteúdo destas fontes.
Triangulação: D&C 131:5 (canônico) + Ensign 1977 (McConkie oficial) + diários de Clayton e Woodruff (primários séc. XIX) + Buerger 1994 + Quinn 1997 (acadêmicos) + Phillips 2012 (testemunho contemporâneo). A ordenança é historicamente documentada; o que permanece deliberadamente opaco é sua prática atual — reconhecida institucionalmente mas não discutida publicamente.