Joseph Smith comprou papiros egípcios de um showman ambulante, afirmou traduzir escritos de Abraão e publicou como escritura canônica. Em 1966 os papiros foram redescobertos — e egiptólogos confirmaram: é um Livro dos Mortos comum.
A história começa com um empresário de exposições que percorria os Estados Unidos com múmias egípcias.
Em 3 de julho de 1835, Michael Chandler chegou a Kirtland, Ohio, com quatro múmias egípcias e vários rolos de papiro. Ele vendia ingressos para as pessoas verem os artefatos. Quando soube que um "profeta" que alegava traduzir línguas antigas morava na região, foi visitá-lo.
Joseph Smith examinou os rolos e declarou que continham escritos dos patriarcas bíblicos Abraão e José do Egito. Dias depois, a Igreja pagou US$ 2.400 (cerca de US$ 80 mil em dólares de 2025) por quatro múmias e os papiros.
Exposição itinerante de múmias e papiros egípcios. Smith examina os rolos.
Igreja adquire quatro múmias e vários rolos de papiro.
Smith trabalha na tradução. Publica capítulos no jornal Times and Seasons em 1842.
Emma Smith vende os papiros para Abel Combs. Acredita-se que parte tenha sido perdida em um incêndio em Chicago (1871).
Incluído na Pérola de Grande Valor como escritura oficial da Igreja.
Metropolitan Museum of Art anuncia a redescoberta de 11 fragmentos dos papiros originais, que a Igreja acreditava perdidos.
Joseph Smith foi específico sobre o que afirmava estar fazendo.
O próprio Livro de Abraão abre com a seguinte descrição, na introdução oficial da Igreja:
Uma tradução, feita por Joseph Smith, de alguns antigos registros que chegaram às suas mãos provenientes das catacumbas do Egito. Os escritos de Abraão enquanto ele estava no Egito, chamados Livro de Abraão, escritos por sua própria mão, em papiro.
Além do texto em si, Joseph Smith produziu entre 1835 e 1836 um conjunto de cadernos hoje conhecidos como Kirtland Egyptian Papers — uma "gramática e alfabeto" egípcios, nos quais ele listava hieróglifos individuais e suas supostas traduções. Esses cadernos estão publicados pela própria Igreja no Joseph Smith Papers.
Nos Kirtland Egyptian Papers, um único hieróglifo aparece frequentemente traduzido como parágrafos inteiros do Livro de Abraão. Egiptólogos modernos, diante do mesmo símbolo, leem apenas uma palavra ou partícula comum.
Durante quase um século, acreditou-se que os papiros originais haviam queimado no Grande Incêndio de Chicago de 1871. Estavam guardados em Nova York.
Em maio de 1966, o professor Aziz S. Atiya, da Universidade de Utah, identificou fragmentos dos papiros de Joseph Smith no acervo do Metropolitan Museum of Art, em Nova York. Em 27 de novembro de 1967, o Museu transferiu oficialmente os fragmentos à Igreja — um evento anunciado pelo próprio N. Eldon Tanner, da Primeira Presidência, na revista oficial Improvement Era de janeiro de 1968.
Recentemente, onze fragmentos de papiro, uma vez pertencentes ao profeta Joseph Smith, foram descobertos no Metropolitan Museum of Art em Nova York. Sobre o verso de alguns dos documentos estão desenhos e inscrições feitos pelo Profeta Joseph Smith ou seus escribas, o que identifica positivamente os documentos como uma vez tendo pertencido a ele.
Isso é decisivo: a Igreja confirmou oficialmente que os fragmentos redescobertos são os mesmos papiros que Joseph Smith usou como base do Livro de Abraão. Não há controvérsia sobre autenticidade.
Quando egiptólogos puderam ler os papiros, o resultado foi inequívoco — e devastador.
Os fragmentos identificados são dois documentos funerários egípcios padrão:
Documento funerário ptolomaico (c. 150 a.C.) feito para um sacerdote chamado Hôr, filho de Osoreor. Dá instruções para a alma passar pelo julgamento dos mortos. Mil anos depois de Abraão ter vivido.
Outro texto funerário, feito para uma mulher chamada Tshenmîn. Contém trechos dos capítulos 3, 4 e 110 do Livro dos Mortos egípcio — um compêndio para os defuntos.
O primeiro egiptólogo de credenciais acadêmicas a examinar os fragmentos foi Klaus Baer, do Oriental Institute da Universidade de Chicago. Sua análise foi publicada em 1968:
O papiro diz: "Ó deuses das cavernas do oeste, deuses do céu, deuses da terra... Possa sua alma viver entre eles [...] possa seu corpo ser enterrado na oeste da necrópole." É um texto funerário. Não tem nenhuma relação com Abraão.
Três décadas depois, Robert K. Ritner, também da Universidade de Chicago e então o maior especialista mundial em magia e religião egípcia antiga, publicou a edição crítica completa:
As "traduções" de Smith em relação aos papiros que sobrevivem não têm absolutamente nenhuma conexão com os textos egípcios originais. Os papiros são documentos funerários rotineiros da era ptolomaica tardia, produzidos para indivíduos identificáveis pelo nome.
Este é um dos únicos casos na história das religiões em que é possível comparar diretamente uma "tradução" profética com o texto original da fonte. O resultado é verificável por qualquer pessoa com acesso aos papiros digitalizados — e qualquer egiptólogo, mórmon ou não, com conhecimento de hierático, chega à mesma conclusão. A diferença entre o que Smith escreveu e o que os papiros dizem não é nuance de interpretação: é o contraste entre um texto religioso sobre Abraão em Ur e uma licença funerária egípcia para um sacerdote chamado Hôr.
O Livro de Abraão inclui três ilustrações reproduzidas dos papiros. Smith forneceu "explicações" para cada figura — e aqui a comparação com a egiptologia é direta.
Os três fac-símiles estão disponíveis oficialmente no site da Igreja, cada um com a "explicação" dada por Joseph Smith. Abaixo, o que ele disse × o que os egiptólogos identificam:
| Figura | Joseph Smith disse | Egiptologia identifica |
|---|---|---|
| Fac-símile 1, fig. 1 | "O Anjo do Senhor" | Alma-pássaro (ba) do morto Hôr |
| Fac-símile 1, fig. 3 | "O ídolo sacerdote de Elquéner" | Anúbis, deus egípcio do embalsamamento, com cabeça de chacal |
| Fac-símile 1, fig. 2 | "Abraão amarrado sobre um altar" | Hôr deitado no leito funerário para embalsamamento |
| Fac-símile 2 | "Hipocéfalo — revelações de Kolob" | Hipocéfalo padrão de um sacerdote, com fórmulas do Livro dos Mortos |
| Fac-símile 3 | "Abraão sentado no trono de Faraó" | Cena de julgamento de Osíris; o "Abraão" é Osíris entronizado |
A identificação do Anúbis (figura 3 do Fac-símile 1) como "ídolo de Elquéner" foi contestada por egiptólogos desde o século XIX. O francês Théodule Devéria, do Louvre, analisou os fac-símiles já em 1861 a pedido do viajante Jules Remy — ou seja, cinco anos antes da Igreja publicar oficialmente o Livro de Abraão como escritura — e identificou as figuras corretamente.
Ou seja: já havia identificação egiptológica correta dos fac-símiles em 1861 — disponível em francês. Mas o Livro de Abraão foi canonizado como escritura oficial da Igreja em 1880, 19 anos depois, sem reconhecer o problema.
Em julho de 2014, a Igreja publicou um ensaio oficial reconhecendo, pela primeira vez, os problemas. É um documento importante.
Nenhum egiptólogo mórmon ou não-mórmon concorda com as interpretações de Joseph Smith de todos os elementos facsímiles do Livro de Abraão [...]. Os fragmentos dos papiros que sobreviveram não correspondem ao texto do Livro de Abraão e estão mais associados a documentos funerários egípcios antigos.
A partir desta admissão, os apologistas oficiais e semi-oficiais da Igreja desenvolveram três teorias de defesa:
Os papiros redescobertos seriam apenas uma fração dos originais; a fonte real do Livro de Abraão teria queimado em Chicago em 1871. Problema: os fac-símiles publicados correspondem exatamente aos fragmentos que sobraram.
Os papiros não seriam fonte, mas apenas um estímulo: Smith teria recebido o texto do Livro de Abraão por revelação direta, independente do que o papiro dizia. Problema: contradiz a afirmação literal da introdução canônica ("escritos por sua própria mão").
Os hieróglifos teriam um sentido oculto acessível apenas por inspiração. Problema: nenhuma evidência independente; não é falsificável; e os Kirtland Egyptian Papers mostram Smith trabalhando como tradutor convencional, não como vidente.
As três teorias são mutuamente incompatíveis e cada uma exige abandonar alguma afirmação que a Igreja sustentou por mais de um século. O próprio ensaio oficial de 2014 oscila entre a teoria dos papiros perdidos e a teoria do catalisador, sem se comprometer com nenhuma — o que é, em si, uma admissão de que a explicação tradicional (tradução literal de papiros existentes) é insustentável.
O Livro de Abraão é o caso mais documentado da história das religiões em que é possível comparar uma "tradução" profética com a fonte original. O resultado dessa comparação é objetivo: Joseph Smith não traduziu o que disse que traduziu.
A própria Igreja admite em Gospel Topics Essay oficial que nenhum egiptólogo — mórmon ou não — endossa as interpretações de Smith dos fac-símiles, e que os papiros sobreviventes são textos funerários, não escritos de Abraão.
Reconhecer isso não exige hostilidade. Exige aceitar a evidência disponível — evidência que a própria instituição reconhece e publica em seu site oficial.
Todas as afirmações desta página podem ser verificadas nas fontes abaixo. Priorizamos fontes primárias: o próprio Livro de Abraão canônico, Joseph Smith Papers, Gospel Topics Essay oficial, e as três principais análises egiptológicas acadêmicas.
Análise educacional. As identificações egiptológicas consensuais são consistentes entre Klaus Baer (1968), Robert Ritner (2011) e John Gee (2017, apologista da BYU): os fragmentos sobreviventes são documentos funerários ptolomaicos. A discussão entre críticos e apologistas hoje não gira em torno do que os papiros dizem — gira em torno de como justificar o que Joseph Smith escreveu, dado o que os papiros dizem.