Tier A · Cabeludos morais

Racismo
no sacerdócio

Entre 1852 e 1978, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias proibiu homens de ascendência africana negra de receberem o sacerdócio ou ordenanças do templo. A doutrina foi ensinada por profetas como revelação divina. Em 2013, a Igreja a desautorizou — reconhecendo que "teorias" sobre maldição, servidão e pele escura "são rejeitadas hoje".

1852 Brigham Young · 1978 Spencer Kimball · 2013 Gospel Topics
Índice

O que você vai encontrar aqui

Seção 01 — 1830–1847

Joseph Smith ordenava
homens negros

Na vida de Joseph Smith, não havia proibição racial. Pelo menos três homens negros receberam o sacerdócio durante sua liderança.

O Gospel Topics Essay oficial confirma:

Gospel Topics Essay · "Race and the Priesthood" · 2013

Há evidência de que, durante a vida de Joseph Smith, alguns homens negros foram ordenados ao sacerdócio. Em algum momento, a Igreja começou a proibir a ordenação ao sacerdócio de homens de ascendência africana negra, apesar de alguns homens negros terem sido ordenados no início da Igreja.

✝️
Elijah Abel

Ordenado Élder em 1836 e Setenta em 1836. Serviu em missões em Nova York e no Canadá. Morreu em 1884 ainda detentor do sacerdócio — apesar do banimento já em vigor.

✝️
Walker Lewis

Ordenado Élder no sacerdócio em 1843 por William Smith, irmão de Joseph. Abolicionista em Massachusetts antes de se converter.

✝️
Q. Walker Lewis (filho)

Filho de Walker Lewis. Casou-se com Mary Matilda Webster, uma mulher branca — casamento que Brigham Young usaria como justificativa para o banimento em 1847.

Durante o governo de Joseph Smith, não há nenhuma revelação registrada — nem em D&C nem em manuscritos — instituindo o banimento racial.

Seção 02 — 1852

Brigham Young
institui o banimento

Em 5 de fevereiro de 1852, diante da legislatura territorial de Utah, Brigham Young pronunciou o discurso que estabeleceu formalmente a política.

Brigham Young · Discurso na Legislatura de Utah · 5 fev 1852 · transcrito em George D. Watt papers

Qualquer homem que tenha uma gota do sangue de Caim nele, não pode deter o Sacerdócio; e se nenhum outro Profeta jamais falou isso antes, eu o digo agora, em nome de Jesus Cristo. Eu sei que é verdade e outros sabem.

Anos depois, em 1863, em Salt Lake Tabernacle:

Brigham Young · Journal of Discourses 10:110 · 8 mar 1863

Abençoemos as suas almas [...] deixem o filho de Cão casar com a filha de Cão; e o filho de Abraão com a filha de Abraão, e o filho de Israel com a filha de Israel. [...] Se o homem branco que pertence a uma semente escolhida misturar seu sangue com a semente de Caim, a penalidade, sob a lei de Deus, é a morte imediata. Assim será sempre.

A política excluía pessoas de ascendência africana negra de:

Ordenança Permitida a membros negros? Consequência
Batismo Sim Podiam ser membros de segunda classe
Sacerdócio Aarônico Não Homens não podiam distribuir sacramento, batizar, etc.
Sacerdócio de Melquisedeque Não Homens não podiam realizar ordenanças superiores
Endowment (templo) Não Proibidos de receber a ordenança de exaltação
Selamento (casamento no templo) Não Casamentos apenas "por esta vida", não eternos
Seção 03 — As "razões" ensinadas

A teologia racial oficial

Não foi apenas uma política administrativa. Por 130 anos, profetas e apóstolos ensinaram razões teológicas específicas para o banimento — publicadas em manuais oficiais, discursos de conferência e literatura doutrinária.

Maldição de Caim
Gênesis 4 — Caim mata Abel e recebe uma "marca". A tradição mórmon (e a de várias outras igrejas do séc. XIX) interpretou essa marca como "pele escura" — maldição hereditária.
Maldição de Cão
Gênesis 9 — Cão, filho de Noé, é amaldiçoado a servir os outros. Mórmons ensinavam que os africanos descendiam dessa linhagem e herdavam a condenação.
Pré-existência covarde
Doutrina desenvolvida por líderes como Joseph Fielding Smith: almas que na guerra pré-mortal foram "menos valentes" nasceram em corpos negros como castigo.
Miscigenação = morte espiritual
Brigham Young (JD 10:110) ensinou que o casamento inter-racial era pecado mortal — aplicação direta da doutrina da expiação pelo sangue.

A doutrina foi canonizada na literatura oficial. O exemplo mais famoso é o livro Mormon Doctrine de Bruce R. McConkie — apóstolo da Igreja — publicado em 1958 e amplamente distribuído. Verbete "NEGROES":

Bruce R. McConkie · Mormon Doctrine · 1ª ed. 1958 · p. 477

No plano pré-existente, certas almas foram escolhidas para vir à Terra em corpos escuros, como resultado de sua imperfeição pré-existente. [...] Os negros não são iguais a outras raças em direção a bênçãos [...]. Aqueles que foram menos valentes na pré-existência e que mantiveram uma neutralidade enquanto satanás e suas hostes lutavam contra os justos [...] são conhecidos como a raça negra.

Joseph Fielding Smith (10º presidente da Igreja) escreveu em Doctrines of Salvation (1954, obra oficial como manual SUD):

Joseph Fielding Smith · Doctrines of Salvation · vol. 1, p. 65–66 · 1954

Houve os fiéis na hoste do céu, que lutaram pela causa de Deus Pai; e aqueles que foram menos valentes foram amaldiçoados [...]. A raça negra, devido ao fato de que não foi valente na hoste pré-mortal, foi punida com a privação do Sacerdócio e suas bênçãos.

Estas não foram citações isoladas. Foram ensinos oficiais reimpressos em manuais de seminário, institutos e aulas da Escola Dominical por décadas. Gerações inteiras de mórmons aprenderam que pessoas negras eram literalmente "menos valentes" na pré-existência.

Seção 04 — Junho de 1978

A revelação de 1978

Em 1º de junho de 1978, o presidente Spencer W. Kimball anunciou que havia recebido uma revelação ordenando o fim do banimento racial.

Doutrina e Convênios · Declaração Oficial 2 · 1978

[...] ele [Deus] pela revelação confirmou que o longo prometido dia havia chegado, quando todo homem fiel e digno na Igreja pode receber o santo sacerdócio, com poder para exercer sua autoridade divina.

A declaração é breve — uma página. Não menciona Brigham Young, não reconhece erro profético, não pede desculpas, não explica por que a revelação veio apenas em 1978.

O contexto que a declaração omite

O ano era 1978. A Igreja estava a construir seu templo em São Paulo, Brasil — país cuja população era majoritariamente miscigenada. Muitos membros brasileiros haviam contribuído financeiramente e espiritualmente para o templo que, literalmente, não poderiam entrar.

A pressão social dos anos 1960–70 (movimento dos direitos civis, Protest at BYU 1969, boicote de universidades esportivas) também é fator documentado por historiadores mórmons (Armand Mauss, Edward Kimball filho do próprio presidente).

Edward L. Kimball — filho do presidente Spencer W. Kimball e seu biógrafo oficial — publicou um artigo em BYU Studies em 2008 detalhando o processo. O processo durou meses. O próprio presidente Kimball pediu aos apóstolos que orassem repetidamente. A decisão não foi instantânea — foi uma deliberação prolongada sob pressão institucional.

Seção 05 — Gospel Topics Essay

O desautorização de 2013

Em dezembro de 2013, a Igreja publicou o Gospel Topics Essay "Race and the Priesthood". O texto desautoriza a teologia racista — mas com distinção sutil.

Gospel Topics Essay · "Race and the Priesthood" · dez 2013

Hoje, a Igreja desautoriza as teorias avançadas no passado de que a pele escura é um sinal de desfavor divino ou maldição, ou que reflete ações em uma vida pré-mortal; de que casamentos entre raças são um pecado; ou que pessoas negras ou de qualquer outra raça ou etnia são, de alguma forma, inferiores a qualquer outra. Os líderes da Igreja hoje condenam inequivocamente todo racismo, passado e presente, de qualquer forma.

O ensaio é o primeiro documento oficial que reconhece que a política veio de Brigham Young (não de Joseph Smith ou revelação):

Gospel Topics Essay · "Race and the Priesthood" · 2013

Há evidência de que, durante a vida de Joseph Smith, alguns homens negros foram ordenados ao sacerdócio. [...] Em 1852, o presidente Brigham Young anunciou publicamente que homens de ascendência africana negra não mais podiam ser ordenados ao sacerdócio, embora pudessem continuar a receber o batismo, o Espírito Santo e as bênçãos do templo. [...] Por quase toda a história da Igreja, o sacerdócio foi mantido aos homens de ascendência africana negra.

O ensaio reconhece especificamente que as "razões" teológicas eram produtos culturais do século XIX:

Gospel Topics Essay · "Race and the Priesthood" · 2013

Ao longo dos anos, líderes e membros da Igreja apresentaram numerosas teorias para explicar o banimento do sacerdócio e do templo. Nenhuma dessas explicações é aceita hoje como doutrina oficial da Igreja.

Seção 06 — O que o ensaio não resolve

O problema do silêncio

O Gospel Topics Essay desautoriza as "teorias". Mas evita três perguntas fundamentais:

1
Brigham errou "em nome de Jesus Cristo"?

Em 1852, Brigham Young afirmou pregar a doutrina "em nome de Jesus Cristo" e que ela era "verdade". Se isso era falso, então um profeta falou como profeta e ensinou racismo teológico. Se não era falso, o banimento era legítimo — e então 1978 não foi revelação, mas mudança política.

2
Por que 126 anos?

Se o banimento nunca foi doutrina verdadeira, por que o presidente John Taylor, Wilford Woodruff, Lorenzo Snow, Joseph F. Smith, Heber J. Grant, George Albert Smith, David O. McKay, Joseph Fielding Smith e Harold B. Lee — todos depois de Brigham Young — não receberam essa revelação?

3
Onde está o pedido de desculpas?

A Igreja Católica pediu desculpas pela Inquisição. Igrejas reformadas pediram desculpas pela escravidão. A Igreja SUD reconheceu que as teorias eram erradas — mas até 2026 não emitiu nenhum pedido formal às famílias negras que foram ensinadas por décadas que eram "menos valentes" na pré-existência.

O historiador mórmon W. Paul Reeve, em Religion of a Different Color: Race and the Mormon Struggle for Whiteness (Oxford University Press, 2015), analisa os registros eclesiásticos e conclui:

W. Paul Reeve · Religion of a Different Color · Oxford, 2015 · pp. 189–210

O banimento racial SUD foi uma criação humana, instituída por Brigham Young em circunstâncias históricas específicas — o encontro com a sociedade escravista do Missouri, a necessidade de legitimação política em Utah, o casamento inter-racial de Q. Walker Lewis em Massachusetts. Não há base doutrinária anterior a 1847 em documentos canônicos, e a justificação teológica foi construída retrospectivamente.

O trabalho de Reeve foi publicado por Oxford, recebeu prêmio da Mormon History Association e é citado pelo próprio Gospel Topics Essay em suas referências. A Igreja reconhece academicamente que o banimento foi construído — mas não chega a dizer que Brigham Young cometeu um erro profético.

Veredicto

Entre 1852 e 1978, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias excluiu pessoas de ascendência africana negra de ordenanças essenciais de sua teologia — sacerdócio, endowment, selamento — com base em uma doutrina ensinada por seus profetas como revelação divina.

A doutrina não foi uma preferência cultural tácita. Foi pregada em sermões oficiais, publicada em manuais, canonizada em literatura apologética como Mormon Doctrine de Bruce R. McConkie, e justificada por nove presidentes sucessivos da Igreja ao longo de 126 anos.

Em 2013, a Igreja desautorizou as justificativas. Mas não revogou a autoridade profética de Brigham Young — criando o impasse epistemológico que permanece: se um profeta pode ensinar racismo "em nome de Jesus Cristo" durante 25 anos, e outros oito profetas podem manter a política, como identifica-se a "revelação" da "opinião humana"?

✦ GOSPEL TOPICS ESSAY · DECLARAÇÃO OFICIAL 2 · REEVE 2015 ✦
Seção 07 — Verificação

Fontes originais & comprovação

A própria Igreja reconhece oficialmente os fatos deste tema em Gospel Topics Essay (2013) e em Declaração Oficial 2 (1978, canonizada em D&C). Os sermões originais estão preservados no Journal of Discourses e nos papers de George D. Watt.

01 — Admissões oficiais da Igreja
01
Gospel Topics Essay — "Race and the Priesthood" (2013)
Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias · dez 2013
Documento oficial da Igreja que reconhece: (1) Joseph Smith ordenou homens negros; (2) o banimento foi instituído por Brigham Young em 1852; (3) as justificações teológicas são "desautorizadas"; (4) a Igreja "condena inequivocamente todo racismo". Ponto de referência essencial para avaliar a história racial da Igreja.
Banimento por Brigham, não por Joseph 1852 como data-chave Teorias desautorizadas Sem pedido de desculpas explícito
churchofjesuschrist.org — Race and the Priesthood (português) Autodocumentação institucional
02
Declaração Oficial 2 — Doutrina e Convênios (1978)
Spencer W. Kimball · 1 jun 1978 · canonizada em D&C em 1978
O anúncio oficial da "revelação" que terminou com o banimento do sacerdócio. Canonizado como parte da D&C. Texto breve, sem reconhecimento de erro profético, sem explicação do motivo da mudança temporal.
Fim oficial do banimento Canonização da revelação 1 junho 1978
churchofjesuschrist.org — D&C Declaração Oficial 2 Escritura canônica SUD
02 — Fontes primárias: sermões e documentos de Brigham Young
03
Discurso de Brigham Young à Legislatura de Utah (5 fev 1852)
George D. Watt Papers · Church History Library · Salt Lake City
Transcrição taquigráfica (Pitman shorthand) de George D. Watt do discurso que estabeleceu o banimento. O documento foi decodificado por historiadores do Church Historical Department e publicado. Contém a frase "em nome de Jesus Cristo" aplicada à proibição.
Fonte primária do banimento "Em nome de Jesus Cristo" Transcrição oficial
archive.org — Speech by Hon. Brigham Young · 1852 George D. Watt Papers · Church History Library
04
Journal of Discourses 7:290–291 (1859) e 10:110 (1863)
Brigham Young · sermões no Tabernáculo · Salt Lake City
Dois sermões essenciais. JD 7:290 ensina que Caim matou Abel por causa da liderança do sacerdócio; JD 10:110 declara que miscigenação racial merece "morte imediata". Publicações oficiais endossadas pela Primeira Presidência da época.
Maldição de Caim Morte por miscigenação Publicado oficialmente
jod.mrm.org — Journal of Discourses vol. 10 Publicação oficial da Igreja · 1859/1863
03 — Doutrina racial canonizada na literatura SUD
05
Bruce R. McConkie — Mormon Doctrine
Bookcraft · 1ª ed. 1958 · 2ª ed. 1966 · ~40 edições · mais de 500 mil cópias
Enciclopédia doutrinária escrita por apóstolo da Igreja, extensamente distribuída em wards e usada em aulas de Priesthood e Escola Dominical. Verbete "NEGROES" ensinava pré-existência covarde e inferioridade espiritual. Ainda em circulação até a 2ª ed. de 2010. Retirada depois silenciosamente.
Pré-existência covarde Obra de apóstolo Distribuição massiva
archive.org — Mormon Doctrine 1ª edição (1958) Literatura apologética oficialmente endossada
06
Joseph Fielding Smith — Doctrines of Salvation
Bookcraft, 1954–1956 · 3 volumes · compilado por Bruce R. McConkie
Compilação oficial dos ensinos do 10º presidente da Igreja. Vol. 1 ensina explicitamente que a "raça negra" foi "menos valente" na hoste pré-mortal e foi punida com a privação do sacerdócio. Usado como manual em institutos SUD por décadas.
"Menos valentes" na pré-existência Manual de instituto Autoria presidencial
archive.org — Doctrines of Salvation Ensinos do presidente da Igreja
04 — Obras acadêmicas
07
Lester E. Bush Jr. — "Mormonism's Negro Doctrine: An Historical Overview"
Dialogue: A Journal of Mormon Thought, vol. 8, nº 1, primavera 1973, pp. 11–68
Artigo seminal que, em 1973, examinou de forma acadêmica e rigorosa a história do banimento racial. O estudo — publicado cinco anos antes da revelação de 1978 — é frequentemente citado como um dos fatores que motivaram a reavaliação institucional. Referência obrigatória em estudos mórmons sobre o tema.
Análise pré-1978 Dialogue Journal Referência acadêmica padrão
dialoguejournal.com — Mormonism's Negro Doctrine (1973) Dialogue · revista acadêmica revisada
08
W. Paul Reeve — Religion of a Different Color: Race and the Mormon Struggle for Whiteness
Oxford University Press, 2015 · ISBN 978-0199754076 · University of Utah
Estudo acadêmico premiado pela Mormon History Association. Reeve é historiador mórmon e professor na University of Utah, com acesso aos arquivos da Igreja. Argumenta que o banimento racial foi construção histórica específica (não revelação), motivada pela necessidade de os mórmons "se branquearem" diante da sociedade americana.
Análise histórica contextual Citado pelo Gospel Topics Essay Mormon History Association Award
global.oup.com — Religion of a Different Color Oxford University Press
Fonte primária verificada academicamente
Fonte oficial da própria Igreja
Link verificado em abril de 2026

Triangulação de fontes: o Gospel Topics Essay oficial (2013) + a Declaração Oficial 2 canonizada em D&C (1978) + Journal of Discourses original (publicado pela própria Igreja em 1850–1880) + Mormon Doctrine de McConkie (1958) + Dialogue 1973 + Oxford 2015 — tudo converge. A Igreja reconhece institucionalmente que a política existiu de 1852 a 1978, que os fundamentos teológicos foram desautorizados, e que o racismo é hoje condenado.