Brigham Young pregou publicamente, em 1856, que certos pecados são tão graves que só podem ser expiados pelo derramamento físico do sangue do pecador. A doutrina foi ensinada por 25 anos, moldou as leis de execução de Utah — e sobreviveu como pelotão de fuzilamento até 2010.
Em 21 de setembro de 1856, em Salt Lake City, Brigham Young — profeta, vidente, revelador, segundo presidente da Igreja — pregou o sermão mais explícito sobre a doutrina que ficaria conhecida como Blood Atonement.
Haverá alguns pecados pelos quais os homens cometerem, que eles nunca poderão receber o perdão neste mundo, ou naquele que está por vir, e se eles tivessem seus olhos abertos para ver sua verdadeira condição, eles ficariam perfeitamente dispostos a ter seu sangue derramado sobre o solo, para que a fumaça pudesse ascender ao céu como uma oferta por seus pecados; e o aroma desse sangue seria uma expiação por seus pecados, ao passo que, se tal curso não for tomado, seus pecados permanecerão sobre eles. [...] Sei que há pecados transgressores que o sangue de um cordeiro, de um bezerro ou de rolas não pode remeter, mas deve ser expiado pelo sangue do homem.
Duas semanas antes, em 8 setembro 1856, ele havia pregado:
Eu sei, quando você ouve meus irmãos dizerem: "Derrame meu sangue para que eu possa ser salvo e exaltado com os Deuses", você não pode ter sentimento compreensível sobre o assunto, e você considera isso uma doutrina bárbara; mas é a que salva o povo. [...] Eu disse muitas vezes, e agora repito, se os homens que são apóstatas ou pecadores pudessem ver as coisas como elas são, eles mesmos diriam: "Vá e derrame meu sangue, para que eu possa ser salvo e exaltado."
Brigham foi específico sobre quais pecados exigiam o derramamento de sangue.
Abandonar a Igreja após ter recebido as ordenanças do templo — conhecido como "pecar contra o Santo Espírito".
Brigham repetia que "o sangue de Cristo não pode lavar o assassinato" — exigia-se que o próprio sangue do assassino fosse derramado.
Violação do casamento celestial. Em JD 3:247 Brigham diz: "Suponham que você encontre seu irmão na cama com sua esposa, e com uma dessas estacas pregadas no chão, você a atravesse pelo coração dele e por ela também. [...] Eu diria que era justo."
JD 10:110, 8 mar 1863: "Se o homem branco que pertence a uma semente escolhida misturar seu sangue com a semente de Caim, a penalidade, sob a lei de Deus, é a morte imediata."
Suponhamos que eu tenha que sentar em julgamento sobre o caso, [...] e eu digo: "Levem-no, e atravessem seu coração com uma estaca". Algum presente ficaria chocado? [...] Os homens e mulheres que pecaram contra o Espírito Santo nunca receberão perdão, [...] a única maneira pela qual eles podem ser salvos é derramando seu sangue.
A doutrina não foi uma declaração isolada ou um momento de ímpeto retórico. Ela foi ensinada consistentemente, por décadas, pela liderança máxima da Igreja.
Brigham Young, Jedediah M. Grant e Heber C. Kimball pregam repetidamente durante a "Reforma Mórmon" em Utah. Jedediah Grant, conselheiro na Primeira Presidência, ecoa a doutrina em Journal of Discourses 4:49–51.
O massacre de 120 emigrantes por milícia mórmon ocorre meses depois dos sermões. Conexão debatida entre historiadores — Walker, Turley & Leonard (2008) identificam a "reforma" com o clima que tornou a violência possível.
Young continua ensinando a doutrina. Em 1877, ano de sua morte, ela ainda constava de discursos publicados.
A Primeira Presidência emite declaração oficial descartando acusações federais, mas não repudia a doutrina em si.
Em Mormon Doctrine (1958), Bruce R. McConkie defende a doutrina como teologicamente válida — mas adverte que não pode ser praticada "nesta dispensação".
Em carta oficial, a Primeira Presidência declara a doutrina "falsa" — 122 anos depois da pregação inicial.
Em 1851, Utah adotou a lei que permitia ao condenado à morte escolher entre enforcamento, decapitação ou pelotão de fuzilamento. A inclusão do fuzilamento tem raiz teológica direta: era o método que garantia o "derramamento de sangue" exigido pela doutrina.
A lei de 1851 foi reeditada em 1876 e novamente em 1878. O professor de direito Samuel W. Taylor (historiador e filho de presidente da Igreja) e o historiador D. Michael Quinn documentam a ligação direta entre a opção de fuzilamento e a teologia da expiação pelo sangue.
Pediu expressamente para ser fuzilado. Primeiro executado nos EUA após a reinstituição da pena de morte em 1976. Norman Mailer escreveu The Executioner's Song sobre o caso. Gilmore cresceu em família mórmon.
Segunda execução por fuzilamento em Utah na era moderna.
Última execução por fuzilamento em Utah. Pediu o método. Morreu amarrado a uma cadeira, com capuz na cabeça, alvo branco sobre o coração, cinco atiradores — um com bala de festim. Cobertura de AP, Reuters, NYT.
Em 2015, Utah reinstituiu o pelotão de fuzilamento como método alternativo quando a injeção letal não estiver disponível (lei HB 11, sancionada pelo governador Gary Herbert). O projeto foi aprovado em uma legislatura de maioria mórmon. A ligação histórica entre a teologia da expiação pelo sangue e o método permanece documentada pela imprensa (Washington Post, NYT, The Atlantic, 2015).
Em 1978, a Primeira Presidência — Spencer W. Kimball, N. Eldon Tanner, Marion G. Romney — emitiu uma declaração oficial rejeitando a doutrina.
Nós afirmamos categoricamente que a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias não ensina a "expiação pelo sangue" como uma doutrina aplicável a homens mortais hoje. [...] A doutrina, como ensinada por Brigham Young e outros no século XIX, não é doutrina oficial da Igreja.
O Gospel Topics Essay "Peace and Violence among 19th-Century Latter-day Saints" (2014) é mais cauteloso, mas reconhece:
Durante a era da Reforma Mórmon nos anos 1850, Brigham Young usou uma linguagem retórica forte, incluindo ensinos sobre "expiação pelo sangue", em uma tentativa de chamar os Santos à maior devoção espiritual. Essa linguagem foi mal interpretada por alguns como autorização para a violência contra apóstatas e inimigos.
A posição oficial atual é contraditória em três pontos.
Primeiro, caracteriza a pregação como "linguagem retórica forte", mas os sermões são explicitamente literais — Brigham Young descreve especificamente o ato de atravessar o coração de alguém com uma estaca.
Segundo, afirma que a pregação foi "mal interpretada" — mas os ouvintes diretos (Jedediah Grant, Heber Kimball) pregaram nos mesmos termos, sem contradição da Primeira Presidência.
Terceiro, se a doutrina nunca foi doutrina, o que é a autoridade profética de Brigham Young? A mesma autoridade que ensinou a expiação pelo sangue ensinou a doutrina Adão-Deus (hoje também repudiada) e proibiu negros do sacerdócio (também revogado). Surge o problema epistemológico: como distinguir o "profeta falando como profeta" do "homem expressando opinião"?
A doutrina da expiação pelo sangue foi pregada, de forma explícita e literal, pela liderança máxima da Igreja — profeta, conselheiros, apóstolos — durante mais de 25 anos. Foi publicada em Journal of Discourses (obra que Brigham Young endossou como "sermões verdadeiros") e defendida teologicamente ainda em 1958 por Bruce R. McConkie.
Não é disputável que ela foi ensinada. O único debate é sobre: (1) até que ponto foi praticada (Mountain Meadows é o caso mais grave); (2) em que medida moldou o direito penal de Utah; e (3) como conciliá-la com a reivindicação de revelação profética contínua.
A Igreja hoje repudia a doutrina. Mas a repudia como "linguagem retórica mal interpretada", e não como erro profético — preservando a infalibilidade de Young. Esta distinção é o centro do problema para quem examina a autoridade mórmon criticamente.
Todos os sermões de Brigham Young estão preservados no Journal of Discourses, disponível livremente pela Universidade Brigham Young. Os casos legais de execução estão documentados por AP, Reuters, NYT e pela Utah Department of Corrections.
Os sermões citados estão preservados em várias edições do Journal of Discourses, publicado entre 1854 e 1886 — obra que Brigham Young endossou oficialmente por circular de 29 out 1854 como "discursos corretos". Todas as edições originais são acessíveis livremente via Internet Archive e BYU Library. O repúdio oficial é confirmado pelo próprio Gospel Topics Essay da Igreja (2014).