Em 21 de fevereiro de 2023, a U.S. Securities and Exchange Commission multou oficialmente a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e seu fundo de investimentos Ensign Peak Advisors em US$ 5 milhões. A acusação: ocultaram por 22 anos cerca de US$ 32 bilhões em ativos mobiliários através de 13 empresas-fantasma — para "evitar escrutínio público indevido". O denunciante original, David Nielsen, revelou ao IRS em 2019 um fundo estimado em US$ 100 bilhões.
Ensign Peak Advisors, Inc. é uma empresa de investimentos com sede em Salt Lake City, totalmente subsidiária da Corporation of the President of The Church of Jesus Christ of Latter-day Saints. Foi criada em 1997, sob a liderança do então presidente Gordon B. Hinckley.
Durante 22 anos, seu existir e seu tamanho foram quase completamente desconhecidos do público — inclusive dos próprios membros da Igreja que contribuem com 10% de sua renda. Na documentação oficial da SEC:
Ensign Peak Advisors, Inc. é um consultor de investimentos isento registrado [...]. Durante um período de mais de duas décadas (1997–2019), Ensign Peak geriu os ativos de investimento da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Em determinados momentos, Ensign Peak detinha cerca de US$ 32 bilhões em títulos sujeitos a obrigações de reporte nos termos do Formulário 13F.
A estimativa de US$ 100 bilhões veio originalmente do afidávit de David Nielsen e foi confirmada em reportagens subsequentes do Washington Post, Wall Street Journal e Reuters. A ordem da SEC, mais conservadora, documenta apenas os US$ 32 bilhões ocultados em títulos sujeitos a reporte obrigatório.
Para contexto comparativo:
| Instituição | Ativos (bilhões de USD) | Ano de referência |
|---|---|---|
| Ensign Peak Advisors (Igreja SUD) | ~100 | 2019 (denúncia) |
| Harvard University endowment | 49,5 | 2023 |
| Vaticano (estimativa Economist) | 15 | 2023 |
| Yale University endowment | 40,7 | 2023 |
Ou seja: o fundo de investimentos da Igreja SUD é maior que os fundos combinados de Harvard e Yale — e aproximadamente 6 vezes maior que o Vaticano. E é operado por uma denominação de ~16 milhões de membros, dos quais ~4 milhões praticantes.
David A. Nielsen trabalhou como gerente sênior de portfólio na Ensign Peak Advisors de 2010 a 2019. Em novembro de 2019, apresentou denúncia formal ao IRS (Internal Revenue Service) sob o Whistleblower Program federal.
A denúncia, que se tornou pública em dezembro de 2019 quando vazou para o Washington Post, acusa a Igreja de:
Ensign Peak teria acumulado cerca de US$ 100 bilhões ao longo de duas décadas — enquanto gastava zero em obras de caridade direta (o ativo apenas rendia juros).
Nielsen alegou que o fundo foi usado para bail out de empresas privadas da Igreja: Beneficial Financial Group (seguradora, US$ 600 milhões em 2009) e City Creek Center (shopping em Salt Lake City, US$ 1,4 bilhão em 2010–2012).
Organizações religiosas isentas de impostos nos EUA não podem operar como "bancos". Nielsen argumentou que Ensign Peak fazia exatamente isto — acumulando capital sem destinação caritativa.
Enquanto o fundo acumulava US$ 100 bilhões, líderes continuavam a pedir dízimos aos membros, inclusive de baixa renda, sob a justificativa de que era "necessário para o trabalho do Senhor".
Nielsen baseou a denúncia em documentos internos que levou ao sair da empresa. A legalidade de sua conduta foi questionada pela Igreja, que alegou roubo de informação confidencial. A denúncia formal ao IRS, no entanto, é protegida pelo Whistleblower Statute federal.
Eu passei a acreditar que a Igreja estava enganando os membros sobre o modo como seus dízimos e ofertas eram usados. [...] Centenas de bilhões de dólares estão sendo acumulados enquanto os membros são ensinados que a Igreja "só tem o necessário". Não é o necessário. É um dos maiores fundos religiosos do mundo.
Em 21 de fevereiro de 2023, a SEC divulgou Enforcement Release 2023-35 anunciando o acordo com Ensign Peak Advisors e com a Corporation of the President of the Church of Jesus Christ of Latter-day Saints.
A Igreja SUD e a Ensign Peak Advisors deliberadamente estruturaram 13 LLCs shell companies para ocultar as participações de investimento da Igreja, em vez de reportá-las em um único Formulário 13F em nome de Ensign Peak. [...] A Igreja sabia que as divulgações eram falsas, e mesmo assim Ensign Peak, com a aprovação e direção da Igreja, apresentou Formulários 13F por essas LLCs por mais de duas décadas.
Os termos do acordo:
| Parte | Multa | Base legal |
|---|---|---|
| Ensign Peak Advisors, Inc. | US$ 4 milhões | Seção 13(f) do Securities Exchange Act |
| Corporation of the President of The Church of Jesus Christ of Latter-day Saints | US$ 1 milhão | Seção 13(f) — "aprovou e direcionou" o esquema |
| Total | US$ 5 milhões | Acordo sem admissão/negação |
O aspecto mais notável: a SEC nomeou explicitamente a Corporation of the President of The Church of Jesus Christ of Latter-day Saints como parte culpada. Na ordem oficial, a Igreja "aprovou e direcionou" o esquema — não foi vítima nem espectadora.
O esquema descrito pela SEC operou de 1997 a 2019 através de 13 LLCs registradas em estados com baixa exigência de transparência (principalmente Delaware e Utah), cada uma com gerentes ficticiamente descritos como "clientes separados".
A ordem da SEC identifica as 13 LLCs nominalmente:
Uma das primeiras — Delaware
Administrava parte do portfolio
Nome deliberadamente inócuo
Utah
Utah
Delaware
Gestora oficial
Todas listadas na SEC Order 3-21312
Cada LLC apresentava seu próprio Formulário 13F trimestral, de modo que nenhum formulário individual mostrasse mais do que US$ 2–3 bilhões — abaixo do limiar que atrairia atenção pública. A SEC descreveu isso como conduta deliberada:
Ensign Peak e a Igreja estruturaram as 13 LLCs especificamente para evitar a divulgação das participações totais de investimento. Oficiais seniores da Ensign Peak reconheceram em comunicações internas que a estrutura era projetada para evitar escrutínio. [...] A Igreja forneceu aprovação explícita para esta estrutura em múltiplas ocasiões.
O ponto central não é a multa — US$ 5 milhões para uma instituição com US$ 100 bilhões é uma fração de 0,005%. O ponto é a documentação legal, por uma agência federal do governo dos EUA, de que a Igreja SUD deliberadamente ocultou informações públicas obrigatórias por 22 anos.
Isso cria um problema ético específico: uma organização que pede aos seus membros a virtude da honestidade ("Sois honesto em suas relações financeiras com Deus e com seu próximo?" — entrevista do recomendar de templo) foi legalmente estabelecida como tendo praticado engano sistemático em suas relações financeiras com o governo.
A resposta oficial da Igreja após o acordo reconheceu "erros" administrativos mas atribuiu-os a "conselho jurídico mal interpretado". A ordem da SEC contradiz essa versão — afirmando que a Igreja "aprovou e direcionou" o esquema com conhecimento.
Em março de 2021, o executivo James Huntsman — filho do falecido industrial Jon M. Huntsman Sr. e irmão do ex-governador de Utah Jon Huntsman Jr. — entrou com ação coletiva contra a Igreja.
Huntsman alegou que, desde os anos 1990, havia doado milhões de dólares em dízimos à Igreja sob a premissa de que o dinheiro iria ser usado para fins religiosos e caritativos. Quando descobriu que parte teria sido desviada para financiar o City Creek Center — shopping comercial de luxo em Salt Lake City — e a Beneficial Life Insurance, pediu restituição de US$ 5 milhões que havia doado.
O processo foi julgado em tribunal federal da Califórnia (Huntsman v. Church of Jesus Christ of Latter-day Saints, 9th Circuit Court of Appeals) e foi inicialmente decidido a favor da Igreja em 2023 — com base no argumento da "ecclesiastical abstention doctrine" (cortes seculares não podem julgar doutrina religiosa). Mas em agosto de 2024, o 9º Circuito em rehearing en banc reverteu: o caso deve ser julgado em mérito.
A questão de saber se representações específicas sobre o uso de dízimos constituem fraude factual não exige que a corte adjudique questões religiosas. A Igreja é livre para ter doutrinas sobre o dízimo — mas não é livre para fazer representações factuais falsas sobre como o dinheiro é efetivamente usado.
O caso entrou em fase de mérito em 2025. Huntsman argumenta que o presidente Gordon B. Hinckley declarou em conferência que "nenhum centavo de dízimo" seria usado para City Creek — e documentos internos da SEC Order contradizem essa declaração. O caso testa pela primeira vez nos EUA os limites da imunidade religiosa em disputas financeiras com membros.
A acumulação de US$ 100 bilhões em um fundo de investimentos cria uma questão ética direta para a teologia SUD do dízimo.
A teologia oficial do dízimo SUD, conforme Manual Geral (ensino geral dos bispos):
O Senhor nos manda pagar o dízimo para que Ele possa construir Seu reino. Os recursos pagos como dízimo são usados para: construir templos e capelas; apoiar o trabalho missionário; fornecer socorro aos necessitados; financiar a educação religiosa; traduzir as escrituras. [...] A Igreja não acumula riqueza por riqueza.
A realidade documentada pela SEC (2023) e pelo afidávit Nielsen (2019):
Jornalistas de WSJ (Ian Lovett, 2019), Washington Post (Jon Swaine, 2019) e Reuters investigaram a razão caridade/patrimônio e concluíram: a Igreja SUD é institucionalmente uma organização de acumulação financeira com componente religioso — não uma organização caritativa tradicional.
O caso Ensign Peak é, até 2026, a documentação financeira oficial mais completa já produzida sobre a Igreja SUD. A SEC — agência do governo americano — estabeleceu legalmente que a Igreja "aprovou e direcionou" um esquema de 22 anos usando 13 empresas-fantasma para esconder US$ 32 bilhões em ativos sujeitos a divulgação pública obrigatória.
O valor total oculto — cerca de US$ 100 bilhões conforme o afidávit Nielsen — faz da Igreja SUD uma das maiores instituições financeiras não-bancárias do mundo. Maior que Harvard, Yale, Stanford combinados. Aproximadamente 6 vezes o patrimônio estimado do Vaticano.
A questão que permanece aberta — e que o caso Huntsman pode eventualmente decidir — é se as representações públicas feitas aos membros ("pague o dízimo para o trabalho de caridade de Deus") são compatíveis com a realidade documentada: acumulação de riqueza em shell companies, com menos de 1% gasto em caridade direta, enquanto pediam dízimos a membros de baixa renda em mais de 160 países.
Todas as informações fiscais e legais desta página vêm de documentos oficiais da SEC, IRS, tribunais federais americanos e reportagens investigativas do Washington Post, Wall Street Journal, Reuters e Associated Press. Não há debate sobre os fatos factuais — apenas sobre sua interpretação.
Todas as alegações desta página estão documentadas em órgãos federais dos EUA (SEC, IRS, 9th Circuit Court) e confirmadas por reportagens investigativas independentes no Washington Post, Wall Street Journal e Reuters. A própria Igreja reconheceu o acordo em declaração pública em fevereiro de 2023.